Há algo de singular no fato de que um dos álbuns mais brasileiros já gravados foi feito em Londres, por um homem que não podia estar no Brasil. O exílio forçado de Caetano Veloso pelo regime militar produziu, como paradoxo cruel, uma obra que só poderia ter nascido daquela distância.
O Exílio Como Método
Transa foi gravado em 1972 com músicos britânicos que Caetano encontrou na cena underground londrina. O encontro é desconcertante e perfeito: guitarras que lembram os Kinks, uma percussão que flerta com o krautrock, e por cima de tudo isso, o português de Caetano — às vezes falado, às vezes cantado, às vezes em algo entre os dois.
A faixa-título é um exercício de contenção: oito minutos de groove quase estático onde a tensão vem justamente da recusa ao clímax. É uma música sobre o tempo suspenso do exílio — esperar sem saber o que se espera.
Poesia Concreta em Formato de Canção
Caetano sempre foi um leitor de Haroldo de Campos, e em Transa essa influência é mais palpável. As letras operam como objetos visuais: sons que importam tanto quanto significados, palavras escolhidas pela textura antes de pela denotação.
"Nine Out of Ten" — uma das raras faixas em inglês — é talvez a melhor síntese do disco: um brasileiro cantando sobre o Brasil em inglês para uma audiência britânica, e sendo mais brasileiro do que nunca exatamente por isso.
Uma Redescoberta Permanente
Cada geração que descobre Transa tem uma reação parecida: surpresa com o quanto ele soa contemporâneo. Isso não é porque o disco foi à frente do seu tempo — é porque ele existiu fora do tempo desde o início.
