Abel Tesfaye passou a última década construindo uma persona — o anti-herói hedonista, o amante insensível, o vampiro pop — e After Hours é o disco em que essa persona começa a rachar. O problema é que as rachaduras são as partes mais interessantes, e há poucas delas.
Quando a Persona Funciona
"Blinding Lights" já é um clássico, e com razão: é uma síntese perfeita de nostalgia pelos anos 80 e produção pop contemporânea. O riff de sintetizador é instantaneamente reconhecível, a melodia do refrão é inevitável, e a mistura de exuberância e melancolia é a assinatura de Tesfaye em seu melhor.
"Heartless" — tecnicamente do EP que precedeu o álbum mas integrada à narrativa — mostra outra face: fria, quase desumana, autoconsciente sobre o quanto o personagem se perdeu no excesso.
Quando Cansa
O problema de After Hours é sua própria coesão. O disco é tão cuidadosamente calibrado em seu aesthetic de noir romanesco que não sobra espaço para surpresas. Cada faixa confirma o que as anteriores já estabeleceram, e em 56 minutos isso começa a parecer autoindulgência disfarçada de coerência artística.
"Too Late" e "Repeat After Me" chegam tarde demais num disco que já disse o que tinha a dizer, e sua presença dilui o impacto das faixas mais fortes.
Um Degrau, Não um Pico
After Hours é um bom álbum de um artista muito bom. Mas entre a genialidade crua de Trilogy e a reinvenção de Dawn FM, ele ocupa um espaço confortável demais. Tesfaye é capaz de mais do que confortável.