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Entrevista

Liniker — A MPB sempre foi política, só que nem sempre admitia

Em conversa com o Soniqo, Liniker fala sobre identidade, a herança da bossa nova e por que recusa o rótulo de artista de resistência.

MPBPop|Por Pedro

Liniker chega atrasada, desculpa-se com a leveza de quem sabe que o tempo das grandes conversas não cabe em agenda, e pede um café duplo antes de sentar. É um começo que combina com o que vem depois: uma hora de conversa que recusa o óbvio a cada desvio.

Seu último disco foi elogiado como MPB. Você se identifica com esse rótulo?

MPB é uma sigla engraçada porque ela significa coisas demais ao mesmo tempo. Significa Caetano e Gil em 1968, significa Roberto Carlos tentando entrar num mercado que o excluía, significa Elis Regina, significa Milton Nascimento — e essas coisas não são a mesma coisa. Quando me chamam de MPB, às vezes é elogio, às vezes é uma tentativa de me encaixar numa prateleira que já existe. Prefiro não brigar com o rótulo. Prefiro que a música seja mais complicada do que qualquer rótulo.

Você mencionou numa entrevista anterior que a bossa nova foi um projeto político. Pode explicar?

A bossa nova foi um projeto de modernização do Brasil que passou pela música. Existia um desejo de demonstrar sofisticação, de dizer pro mundo que o Brasil não era só samba de morro — que havia uma intelectualidade urbana, cosmopolita, que podia conversar com o jazz americano. Isso tem uma dimensão de classe muito clara. Não é crítica — é contexto. Toda arte é política, a questão é qual política.

E a sua música, qual política ela carrega?

Eu existo. Isso já é político, porque há gente que preferia que eu não existisse — ou que existisse de outro jeito, num outro corpo, numa outra identidade. Mas eu não quero que a minha música seja reduzida a isso. Quero que ela seja uma conversa sobre amor, sobre perda, sobre o corpo como lugar de prazer e não só de luta. A resistência não precisa ser o tema central pra estar presente.

O que você acha que a nova geração está fazendo de diferente na MPB?

A gente parou de pedir permissão. Não precisamos mais convencer a indústria de que existimos — temos ferramentas pra existir independente dela. Isso muda tudo: o que você faz, como você faz, pra quem você faz. E muda o que você coloca na música, porque não tem mais um intermediário dizendo o que é comercial e o que é demais.

Última pergunta: o que você está ouvindo agora?

(risos) Caetano. Sempre volto ao Caetano. Transa, especialmente. Acho que vou ouvir esse disco pelo resto da vida e ainda vai ter coisa nova pra descobrir.

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